sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Preservando o impalpável

O samba de roda do Recôncavo Baiano é um dos patrimônios imateriais brasileiros reconhecidos pela UNESCO.

Conforme dissemos no post alusivo ao Dia do Museólogo, o trabalho deste profissional hoje em dia não se restringe a bens e objetos palpáveis, isto é, materialmente existentes, mas também a diversos itens que não podem ser tocados ou guardados: são os chamados bens do Patrimônio Cultural Imaterial que hoje domina o trabalho de diversos profissionais, além do museólogo, em vários países.

Oficialmente definido pela UNESCO como "Patrimônio Oral e Imaterial (ou Intangível) da Humanidade", é uma distinção criada pela entidade em 1997 para a proteção e o reconhecimento de inúmeras atividades culturais que não podiam ser "guardadas" em nenhum lugar. Nesta categoria encontram-se expressões culturais e tradições que grupos de indivíduos em todo o mundo preservam em respeito ao seu passado para as futuras gerações. São exemplos de patrimônio imaterial saberes, modos de fazer, formas de expressão, celebrações, festas e danças populares, lendas, músicas, costumes e outras tradições típicas, por vezes, de grupos diminutos e pouco conhecidos até mesmo por seus pares.


O complexo sistema gráfico e oral dos índios Wajãpi, que vivem no Amapá, é o outro patrimônio imaterial brasileiros reconhecido pela UNESCO. Assista o vídeo a respeito.

A partir deste marco, tradições admiradas mundialmente passaram a ser reconhecidas como parte da cultura mundial e, portanto, preservadas. Atividades tão diferentes como as Festas Indígenas Dedicadas aos Mortos no México e o Carnaval de Binche, na Bélgica, estão sendo registradas e preservadas tanto para a população que participa das mesmas quanto para todo o mundo.

Países signatários da chamada "Convenção para a Salvaguarda do Patrimônio Cultural Imaterial" registraram uma lista de bens imateriais que, a cada dois anos, pode ser aumentada a partir das candidaturas apresentadas pelos países signatários. A primeira lista de bens inscritos foi divulgada em 2001, já tendo havido a publicação de duas outras duas, em 2003 e 2005, totalizando hoje 90 bens registrados. Do Brasil vêm duas tradições: as Expressões Orais e Gráficas dos Wajãpi e o Samba de Roda do Recôncavo Baiano. Veja uma lista completa do bens imateriais de todo o mundo aqui.

O Círio de Nossa Senhora de Nazaré tem lugar na cidade de Belém, no Pará, a cada mês de outubro. É considerado um dos principais patrimônios imateriais brasileiros pelo IPHAN.

No Brasil, o "Programa Nacional do Patrimônio Imaterial - PNPI", instituído pelo Decreto nº 3.551, de 4 de agosto de 2000, viabiliza projetos de identificação, reconhecimento, salvaguarda e promoção da dimensão imaterial do patrimônio cultural. É um programa de apoio e fomento que busca estabelecer parcerias com instituições governamentais, organizações não governamentais, universidades, agências de desenvolvimento e organizações privadas ligadas à cultura e à pesquisa. Tal programa é executado pelo IPHAN - Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, que conta com vários instrumentos para destacar, registrar e preservar uma série de festas, encontros, cerimônias, modos de fazer e outros bens imateriais brasileiros.

Além das duas manifestações culturais imateriais brasileiras já reconhecidas pela UNESCO, nosso país também registra vários outros bens imateriais que podem ser considerados fundamentais em nossa cultura. A Festa do Divino Espírito Santo na cidade de Pirenópolis em Goiás, o Círio de Nossa Senhora de Nazaré em Belém do Pará, as Baianas de Acarajé na Bahia e o modo artesanal de fazer queijo em algumas regiões de Minas Gerais, são alguns exemplos. No site do IPHAN é possível ver a relação completa destes bens, já registrados e catalogados pelo órgão.

A maturação em estantes dos queijos feitos na Serra da Canastra, em Minas Gerais: um "saber" brasileiro registrado como bem cultural imaterial.

E, aos poucos, vamos descobrindo outros "saberes e fazeres" que merecem ser registrados e protegidos, tanto por meio de sua manutenção junto à população próxima aos locais onde se realizam, quanto por meio de registro fotográfico, descrições, entrevistas, filmagens e meios digitais. Trata-se enfim, de riquezas da humanidade que devem ser cuidadosa e carinhosamente cuidada por todos: governos, instituições e população.

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