quarta-feira, 21 de agosto de 2013

A fotografia no século XIX - os primórdios - parte I

*Texto de Marcos Felipe de Brum Lopes, historiador

Para alguns, uma arte, para outros, algo não muito mais do que um espelho da realidade. Seja qual for o julgamento, a fotografia tem mais de 170 anos de vida oficial. Durante este tempo, viu-se a transformação dos atos fotográficos demorados e aparelhos gigantescos, em “clics” instantâneos e mini câmeras. Se fossemos narrar todo esse tempo, essas poucas linhas certamente não bastariam. Além do mais, história e narrativa não são, necessariamente, a mesma coisa. Afinal de contas, o que tem a ver a fotografia com a história?

A principal foto da família Botelho de Magalhães foi feita com a técnica da Albumina.

Como muitas invenções e produções humanas, a fotografia não tem apenas uma história, mas várias. A palavra “fotografia” significa “escrita com a luz”. Ela foi empregada pela primeira vez na década de 1830. Desde pelo menos a primeira metade do século XVIII, a partir dos estudos do alemão Johann Heinrich Schulze, sabia-se que os sais de prata eram sensíveis à luz (tais sais comporiam a superfície das fotografias) e que se poderiam escrever caracteres por intermédio da luz. Na verdade, o problema dos experimentadores não era fazer com que a luz “queimasse” e modificasse a cor dos sais de prata sobre uma superfície, mas sim fazer com que a imagem resultante fosse fixada, ou seja, não escurecesse e, assim, desaparecesse por completo. Se considerarmos este dado, poderíamos sugerir que o principio fotográfico já estava presente na cultura científica europeia cerca de 90 anos antes de seu nascimento oficial. Isto nos sugere que a fotografia foi mais um resultado de uma conjuntura cultural do que um produto instantâneo de uma mente genial.

Tal perspectiva põe em xeque nossa datação inicial e oferece outros nomes na busca por um inventor da fotografia. O francês Nicéphore Niépce, com dificuldades para obter pedras para suas tentativas litográficas, pensou em usar metal e luz solar, obtendo o que se considera ser a primeira fotografia da história, em 1826. O autor batizou sua imagem de heliografia, aludindo ao verdadeiro produtor da imagem, ou seja, ao sol. Niépce, entretanto, morreu na miséria em 1833. Entre este ano e o de 1839, o também francês Louis Daguerre, um pintor de talento mediano, firmou parceria com Isidore, filho de Niépce, para a exploração da invenção. Como homem astuto e ambicioso, Daguerre soube fazer da invenção algo rentável, recebendo reconhecimento público e financiamento do governo francês.

A primeira foto de Niépce.

O processo fotográfico desenvolvido por Daguerre consistia numa câmera obscura equipada com uma placa de metal, sensibilizada com sais de prata. Um orifício na câmera permitia a entrada de luz, controlada por um obturador. Assim, o autor da imagem determinava o tempo de exposição da placa, ou seja, por quanto tempo a superfície banhada nos sais receberia ação da luz.

Em 1839, numa sessão da Academia de Ciências, o Estado Francês adquiriu a invenção e a tornou pública para a livre iniciativa. Como Niépce já havia sido esquecido, o novo processo de produção de imagens foi batizado em homenagem ao seu novo inventor, passando a se chamar daguerreótipo. François Arago, secretário da Academia, apresentou ao público os benefícios artísticos e científicos que a fotografia poderia proporcionar. Por sua vez, Daguerre buscava investidores com frases de efeito, como esta emitida em 1838: “O daguerreótipo não é apenas um instrumento que serve para retratar a natureza, (...) [mas] dá a ela a capacidade de reproduzir-se”. Enquanto isso...

Louis Daguerre.

...O britânico William Henry Fox Talbot fazia também seus experimentos. Como não conseguia reproduzir em desenhos as cenas que gostaria de registrar, iniciou uma busca por um mecanismo de apreensão do mundo visível. Inventou e patenteou um processo de fotografia sobre papel, inaugurando o sistema negativo-positivo. Descrito publicamente em 1839 e patenteada em 1841, o processo ficaria conhecido como "calótipo". O leitor atento já deve ter captado uma das diferenças capitais entre o calótipo (ou "talbótipo", em homenagem ao seu criador) e o daguerreótipo. O sistema negativo-positivo possibilita a reprodução do original, ao passo que o processo de Daguerre produz uma imagem única, pois era um positivo direto. Ainda que diferentes, ambos os processos tinham suas funções sócio culturais.

Leia a segunda parte deste post...

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