quarta-feira, 27 de março de 2013

A APA de Santa Teresa

Você sabia que nosso Museu Casa e todo parque em torno fazem parte da APA de Santa Teresa? E o que isto quer dizer de fato?

Uma das mais belas vistas de Santa Teresa: o Pão de Açúcar emoldurado pela Mata Atlântica local.

Bem, uma "APA" é uma "Área de Proteção Ambiental" que faz parte do chamado "Grupo das Unidades de Uso Sustentável", definidas na lei 9.985/2000 que trata sobre o Sistema Nacional de Unidades de Conservação. Tal lei diz que a "APA é, em geral, uma área extensa, com certo grau de ocupação humana, dotada de atributos abióticos (que não têm vida, mas que com ela interajam), bióticos (naturais, relativos à vida), estéticos ou culturais especialmente importantes para a qualidade de vida e o bem estar das populações humanas, e tem como objetivos básicos proteger a diversidade biológica, disciplinar o processo de ocupação e assegurar a sustentabilidade do uso dos recursos naturais". Ufa, é bastante coisa, não é? Vamos analisar tudo isso com mais calma.

A vegetação exuberante de uma encosta  e o já famoso "Castelinho de Santa Teresa" : conjunto únicode natureza + ambiente construído.

A APA de nosso bairro, Santa Teresa, foi constituída pela lei n ° 495 de 9 de janeiro de 1984, e pelo decreto 5050 de 1985, este último apenas sob o ponto de vista urbanístico. A lei - de autoria do então vereador Sérgio Cabral - define que todo o bairro de Santa Teresa, inserido e reconhecido dentro da XXIII Região Administrativa da cidade do Rio de Janeiro, torna-se, a partir de então, região de proteção ambiental e com limitações de ocupação por parte de indústrias e comércio, além da demolição e da construção nas propriedades existentes.

O casario dos séculos XVIII e XIX: outro elemento que a APA também deve proteger.

Isso significa na prática que ficou proibido, desde então, a Instalação de indústrias de qualquer tipo na área delimitada, salvo as puramente artesanais, e que não possuam qualquer grau de poluência. Significa também que somente após autorização dos órgãos técnicos de proteção ambiental poderão ser construídos edifícios ou casas e realizadas obras de qualquer natureza na referida APA. Casas ou edifícios com mais de dois pavimentos ou que avancem a mais de 15 metros de fundo nas encostas dos morros que pertencem à APA também não terão permissão para construção. Ou seja: a lei disciplina o processo de ocupação da região.


Deslizamento em 2010: a legislação ainda precisa avançar muito para que a APA possa contar com estruturas que preservem as encostas

Os chamados "atributos abióticos" de Santa Teresa são vários, tais como o clima, o regime de chuvas, as condições do solo, o relevo, entre outros, que não têm existência como "vida", mas que com ela interagem. Isso quer dizer que há uma preocupação em resguardar diversos aspectos do ambiente do bairro de modo a, indiretamente, preservar as espécies do local, ou seja, além da população, a fauna e a flora da região: estas últimas que já fazem parte dos "atributos bióticos".

O bondinho, hoje com circulação suspensa: poderia também ser preservado pela APA.

Já os atributos estéticos e culturais especialmente importantes que se desejou preservar também são praticamente óbvios: a ocupação por parte da população sobre uma área em desnível em relação a todo seu entorno, a conservação do casario da época desta ocupação (séculos XVIII e XIX), o transporte feito pelos charmosos bondinhos (que à época da lei, transitavam no bairro), as vistas, o ar boêmio de seus habitantes e visitantes, os bares, restaurantes e centros culturais, seus artistas e artesãos, tudo enfim que torna este bairro único em todo o mundo.

Crianças chegando ao nosso parque para aulas de educação ambiental: cuidar do futuro da APA também é nosso dever.

Infelizmente, após o decreto de 1985, que tentou regulamentar a lei, mas que apenas efetuou uma longa lista de logradouros (ruas) que se localizam dentro da APA e suas atividades permitidas e proibidas, nada mais foi feito. Ainda faltam muitos detalhes para tornar a lei mais eficaz e que proteja de fato, o patrimônio ambiental do bairro. Basta observarmos as diversas ocorrências de deslizamentos e outros problemas semelhantes, em épocas de chuvas constantes, para perceber que ainda há muito a ser regulamentado e estabelecido. Um outro exemplo dos mais marcantes é a atual suspensão de trânsito dos bondinhos pelo bairro, o que deixa Santa Teresa sem um de seus grandes trunfos turísticos: imaginamos que, se a lei sobre a APA estivesse melhor regulamentada, talvez este problema já teria sido resolvido. A "AMAST - Associação de Moradores e Amigos de Santa Teresa" - tenta engajar a população local através de diversas atividades de modo que haja, no mínimo, uma reflexão a respeito da importância que o título de "APA" traz, mas sem muito sucesso. Esperemos que este panorama se modifique, e muito.

quinta-feira, 21 de março de 2013

O Professor Benjamim Constant

Foto histórica: Benjamin Constant (na janela) com alguns dos alunos do "Imperial Instituto dos Meninos Cegos" no pátio da antiga sede, no centro do Rio.

Conforme já dissemos por aqui, Benjamin Constant nunca deixou dúvidas em relação à sua paixão pelo mundo acadêmico e pelo gosto pelas ciências exatas, com as quais teve contato desde cedo. E esta foi uma vertente de sua vida profissional das mais importantes, inclusive para a nossa história.

Tendo sido admitido na Escola Militar em 1852, ainda aos 15 anos, graduou-se engenheiro militar na Escola de Aplicação do Exército em 1858 e desde esta época, tentou por diversas vezes ser admitido como professor através de concursos públicos que prestava e era aprovado - muitas vezes como primeiro colocado - mas que não se concretizavam devido à prática do apadrinhamento, comum à época.

Em 1860, além de promovido a tenente do Estado Maior de 1ª Classe, diplomou-se bacharel em ciências físicas e matemáticas e, finalmente, dois anos depois, ingressa no magistério, nomeado professor de matemáticas elementares no Imperial Instituto dos Meninos Cegos por seu futuro sogro, Claudio Manoel da Costa. Em 1863 finalmente consegue ingressar por concurso como professor de matemáticas no Instituto Comercial.

Claudio Manoel da Costa: diretor do "Imperial Instituto dos Meninos Cegos" e sogro de Benjamin Constant.

A passagem pelo Imperial Instituto dos Meninos Cegos foi fundamental tanto para a instituição, quanto para o professor: Benjamin adaptou o ensino de álgebra elementar para cegos, publicado no Sistema Braille, o que trouxe avanços significativos para os estudantes, e este é apenas um dos motivos pelos quais, mais tarde, o Instituto teve seu nome alterado para homenagear o militar professor. Foi lá também que Benjamin conheceu Maria Joaquina, e com ela se casa em 1863.

A carreira como docente é interrompida em 1866, quando é convocado para a Guerra do Paraguai. Período sofrido e sombrio do mestre que fica registrado em diversas cartas que ele envia à sua esposa, a seu sogro e a alguns amigos. Retorna no ano seguinte, sofrendo de Malária - que contraiu nos charcos paraguaios onde guerreou - e se afasta durante um período de todas as suas atividades para tratar-se.

Mas, em 1869, é chamado para não apenas lecionar novamente no Instituto dos Meninos Cegos, como também para dirigí-lo, por ocasião da aposentadoria de Claudio Manoel da Costa. Ocupou tal cargo por mais de 20 anos com sucesso, até o encerramento de sua vida no magistério, tendo inclusive aprovado o projeto de um novo prédio para o Instituto, no bairro carioca da Urca, onde permanece até hoje. Em 1880, Benjamin ainda foi nomeado professor e diretor da Escola Normal da Corte e lente catedrático da Escola Superior de Guerra em março de 1889, ano em que se aposenta.

Recepção a oficiais chilenos na Escola Militar localizada na Urca. Benjamin Constant aparece no meio de alunos e professores apontado com uma seta (círculo tracejado)

É importante destacar que a vida de Benjamin no magistério foi um fator decisivo em sua atuação quando dos eventos que antecederam à proclamação de nossa república, visto que, por ser um professor dedicado e querido por muitos alunos, era uma voz ativa e influente sobre um grande número de jovens que clamavam pela renovação do governo no país.

terça-feira, 19 de março de 2013

Palmeiras imperiais em nosso jardim

Um de nossos exemplares de Palmeira Imperial: ainda em sua infância.

A Roystonea oleracea é uma árvore cuja história se confunde com a do próprio Brasil, e que se inicia ainda no período colonial. Palmeira originária da região do Caribe, foi presenteada pelo comerciante português e capitão de fragata Luis de Abreu ao Príncipe Dom João VI em 1809. O próprio D. João encarregou-se de plantá-la no Horto, hoje o Jardim Botânico do Rio de Janeiro, e este exemplar ficou conhecido como "Palma Mater". E, também desde esta época, a espécie passou a ser conhecida como Palmeira Real ou Palmeira Imperial.

Conta-se que os administradores do Horto mandavam os escravos pegarem as sementes das palmeiras e as queimarem, para que apenas aquele espaço tivesse a Palmeira Imperial no Brasil. No entanto, os escravos escondiam as sementes e as vendiam para ricos comerciantes e, deste exemplar oferecido ao D. João VI, descendem todas as Palmeiras Imperiais espalhadas em diversos palácios, parques, fazendas, casas e em outros jardins da época do Brasil Colônia.

O conjunto de dezoito Palmeiras Imperiais originalmente plantadas nos jardins da casa de Benjamin Constant.

Tudo leva a crer que tenha sido desta forma que chegaram aos jardins do que seria a futura casa de Benjamin Constant - erguida por Antonio Moreira Souza Costa, um comerciante português - nada menos que dezoito Palmeiras Imperiais, como pode ser visto em foto tirada em 1900, posicionadas de frente à casa museu e à Casa de Bernardina (veja o tracejado). Infelizmente só restou um exemplar desta época, nosso principal espécime, que deve possuir cerca de 20 metros de altura.

Atualmente há em nosso parque, além da Palmeira principal, mais cinco exemplares de baixa estatura e desenvolvimento vertical. Além da sombra - que não ajuda a nenhuma planta - as pequenas palmeiras não passam de 6 metros de altura, quando uma bem desenvolvida pode alcançar de 18 a 40 metros. Mas ver tanto a espécie principal, plantada ainda no século XIX, e as menores, é mais um bom motivo para você visitar e prestar atenção às árvores de nosso parque.


Nosso espécime principal, que pode ser visto facilmente a partir de nosso mirante, metros acima do Museu Casa.
Nota Importante: Neste período de fortes chuvas de verão no Rio, que geralmente ocorrem nos fins de tarde, tem havido pequenas interdições em nosso parque nos dias que sucedem a estas tempestades. Além da limpeza que fica mais pesada nestes dias, pode ter havido a queda de alguma árvore, e precisamos interditar trechos de nossas trilhas para garantir a segurança de quem nos visita.

quarta-feira, 13 de março de 2013

Os tinteiros de Benjamin

A escrita que hoje é considerada "de época", redigida pelos alfabetizados em qualquer língua, obviamente, é uma das mais bonitas de se observar. Benjamin Constant, sendo professor, era um escritor por profissão e para isso utilizava-se de alguns tinteiros que hoje se encontram expostos em nosso museu casa.

Um tinteiro é um pequeno jarro, normalmemente feito em vidro, porcelana, prata, latão ou pewter (um tipo de liga de estanho). E utilizado como recipiente de tinta para quem escreve com bico de pena, complemento natural do objeto. Os primeiros tinteiros apareceram em fins do século XIX, com a finalidade facilitar a escrita.

Vamos ver os tinteiros de nosso acervo?


Composto por base em metal decorada com motivos fitomorfos, tendo ao centro um recipiente em forma de taça com borda perolada e uma cavidade frontal decorada na parte interna com frisos perolados, este tinteiro tem também parte anterior com motivo fitomorfo na borda. Seus pés são de metal sendo os dois frontais em forma de bola e o posterior em forma triangular, todos decorados. Dois recipientes em vidro na cor azul em forma de bulbo facetado com base cilíndrica recebem a tinta e quatro tampas em metal, em formato circular, com borda perolada com pegador em forma de bulbo e sobre tampa em metal de formato circular com perfurações completam o conjunto.


Bem mais simples - devia ser utilizado no dia a dia ou pelas mulheres - este tinteiro em vidro transparente possui formato retangular com arestas bisotadas, tendo ao centro abertura circular com borda ressaltada.


Com um formato dos mais diferentes, este tinteiro é composto por uma base quadrada em metal com cantos facetados, tendo em sua parte posterior uma estrutura em metal vazado decorado com motivos geométricos. O recipiente em vidro transparente tem forma trapezoidal e na parte superior, uma saliência quadrangular com orifício circular para acesso à caneta. A tampa em metal em forma piramidal terminando em quadrado e o pegador em forma de pinha sobre círculo são dois componentes da peça dos mais interessantes.



Finalmente, esta suntuosa peça encerra a pequena coleção de tinteiros do acervo de nosso patrono Benjamin Constant e data de 1890. A ele presenteado por seus funcionários do Ministério da Guerra, é composto por uma base oval em prata, recipiente e tampa. Esta base é decorada com um perolado e uma moldura em dourado e tem ao centro detalhes de galhos retorcidos e folhas sobre pedra em prata e dourado. Ladeada por suportes circulares dos recipientes, decorado com folha em dourado. São quatro pés em prata, em forma de galhos retorcidos e na parte frontal um medalhão elíptico decorado com o mesmo motivo dos pés com a inscrição: "Ao Dr/Benjamin Constant/O Pessoal do seu Gabinete/Fevereiro de 1890". Dois recipientes em cristal transparente, em formato circular lapidado e base circular cujas tampas são compostas por duas partes unidas por dobradiça, em prata.

terça-feira, 5 de março de 2013

O Diário de Bernardina




Editado por Celso Castro e Renato Lemos, com base no diário da quarta filha de Benjamin Constant, Bernardina Botelho de Magalhães, o livro "O Diário de Bernardina" traz um apanhado dos acontecimentos na casa dos Botelho de Magalhães bem à época em que se desenrolavam os fatos que precederam a Proclamação da República. Com um tom delicado e uma visão feminina dos bastidores onde seu pai se encontrava com diversos dos mentores da revolução republicana, Bernardina também fala dos modos e das modas de sua época.

Consta que esta imagem foi gerada três anos  depois da data original da Proclamação da República. Os militares reproduziram a formação do dia da proclamação para fazer a imagem.


"Acordei hoje ao toque de trombetas dos soldados e assustada levantei-me e soube então por mamãe que vieram de madrugada alguns oficiais para irem com papai para o quartel-general, pois receavam que o movimento para república rebentasse hoje(...)"

O relato é centrado em seu dia a dia no século XIX, tipicamente familiar: uma moça como Bernardina estava fadada a aprender a cuidar da casa, cozinhar, receber convidados, tocar piano, costurar e finalmente, casar para ter filhos. E a protagonista passa por tudo isso como qualquer outra moça de sua época. À exceção do fato de que ela sabia ler e escrever, o que não era comum à época, nem nas classes mais altas. Mas Benjamin Constant era um professor e um apaixonado pelo conhecimento. Assim sendo, entendia que também as mulheres deveriam receber uma educação formal, por mínima que fosse, de modo a se manterem atualizadas com seu mundo ao redor. Portanto, nada melhor que pôr em prática esta perspectiva com suas próprias filhas: todas aprenderam a ler e a escrever como todo "menino de família" da época.

Detalhe de mulher bordando no quadro "A Pátria", de Pedro Bruno, que busca registrar a criação da nova bandeira.

"A d.Marianinha esteve cá. Esteve me ensinando como havia de bordar uma escova em veludo; ela acha bom que eu e Alcida façamos alguns bordados, antes de começar a bandeira, para praticar."

E por isso trata-se de um relato importante: não há nada de "picante" ou "insinuante" no diário, cujo original faz parte de nosso acervo. Bernardina prima por ressaltar os detalhes de uma (quase) típica família de classe média alta da época. Falando de história, o livro traz uma deliciosa descrição de como os moradores do Rio de Janeiro assistiram à entrada e a saída (e algumas confusões também), dos nobres que estiveram naquele que seria considerado como "o último baile do Império", qual seja, o baile da Ilha Fiscal. Também falando em história, narra como ela, algumas de suas irmãs e outras moças e senhoras amigas, costuraram e bordaram as duas primeiras bandeiras da nascente república brasileira: a pedido de seu pai e com desenho dele (criado em conjunto com outros expoentes, claro), o grupo cozeu belamente um exemplar para a Escola Superior e outro para a Escola Militar.

D. Pedro II e família.

"(...)O imperador embarcou hoje para Itália com toda sua família; disse que reconhecia em papai e no general Deodoro verdadeiros amigos; ele partiu voluntariamente porque os militares fizeram-lhe ver que sua estada aqui podia provocar uma guerra civil mesmo, por ser ele muito estimado pelo povo(...)"

Trata-se de um relato sem par, de um momento histórico dos mais importantes de nossa história, cujos registros são escassos. Vale a pena conhecer!