sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Índios, república e positivismo: Rondon e sua herança no acervo do Museu Casa de Benjamin Constant - 1ª Parte

Marcos Felipe de Brum Lopes

Na 9ª Primavera de Museus, que tem como tema “Museus e memórias indígenas”, nosso museus destaca a relação entre os índios e o Estado brasileiro durante a república. A temática será trabalhada através de uma mostra temporária de documentos e objetos sobre a atuação do Marechal Cândido Rondon à frente do Serviço de Proteção ao Índio (SPI). Rondon teve uma relação bastante próxima com a família de Benjamin Constant e era, assim como Benjamin, positivista. Veja a seguir a primeira parte da Discussão que levantamos sobre o tema. 

Rede oferecida à Família de Benjamin Constant por Cândido Rondon. Século XX.
Museu Casa de Benjamin Constant, IBRAM/MinC. (Reprodução: Paulo Rodrigues)


A presença do índio no debate sobre o Brasil foi e é constante. Nessa história, o SPI, criado em 1910 como SPILTN - Serviço de Proteção ao Índio e Localização dos Trabalhadores Nacionais - teve um papel fundamental. As interpretações sobre a trajetória e os feitos do SPI são as mais controversas e antagônicas. Encontramos detratores, críticos ferrenhos, saudosistas românticos e defensores daquela instituição. Certamente, Cândido Mariano da Silva Rondon é a principal figura dos anos iniciais do SPI, tendo reinaugurado com nova roupagem a tradição de olhar o Brasil através dos índios.

Por todas as críticas que possam ser feitas ao SPI, parece inegável que o contexto no qual foi criado refletiu, pela primeira vez, a necessidade de considerar o indígena como um indivíduo do presente histórico nacional. Se antes o índio povoava o imaginário literário, surgindo de tempos idos e míticos, Rondon começava a se deparar in loco com povos indígenas ao longo dos esforços do governo republicano de unificar o território através da comunicação telegráfica.

A abordagem rondoniana é considerada por Mércio Pereira Gomes pioneira e humanista, pois estabelece a necessidade de considerar os povos indígenas como nações autônomas com as quais o Estado deveria travar “relações de amizade”1. Dessa perspectiva surgiu a belíssima frase “morrer se preciso for, matar nunca” que simboliza bem o comportamento pregado por Rondon em relação ao índio. A frase tem uma influência positivista clara no que se refere à fraternidade e ao mandamento “viver para outrem”, uma das máximas do positivismo. Cândido Rondon, fundador do SPI, foi aluno e discípulo de Benjamin Constant, o Fundador da República. Rondon deu a seu filho o nome de seu professor e um de seus colaboradores nos trabalhos sertanistas era Amílcar Botelho de Magalhães, sobrinho de Benjamin Constant.

Continua...

1 GOMES, Mércio Pereira. Por que sou Rondoniano. In: Estudos Avançados, v.23, nº.65, São Paulo, 2009.

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