quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Mostra Rondon

Expositor sendo montado para mini mostra sobre o Marechal Rondon.

Nos posts anteriores publicamos a fundamentação teórica feita por Marcos Lopes, nosso historiador, da pequena mostra montada para a 9ª Primavera de Museus, cujo tema “Museus e memórias indígenas”, nos remeteu diretamente à ligação entre nosso patrono, Benjamin Constant, e o Marechal Cândido Rondon, figura pioneira na defesa do território nacional e de seus moradores mais antigos: as tribos indígenas que habitavam o Brasil, já quando do descobrimento.

Cartazete da mostra - Clique para ler.


Que Rondon foi aluno, discípulo e defensor da memória de Benjamin Constant, quem lê este blog já sabe. A mini mostra sobre o Marechal, locada dentro de nossa exposição permanente, traz documentos e objetos de sua atuação à frente do Serviço de Proteção ao Índio (SPI), primeiro órgão da República criado para proteger e preservar as tradições culturais da população indígena. Dentre estas peças está a máscara mortuária do marechal, que foi "presenteada" a alguns de seus amigos e parentes quando de seu falecimento em 1958. Os filhos e netos de Benjamin Constant foram uma dessas pessoas. A máscara é como um 'souvenir' de meados do século XIX, uma lembrança da pessoa - o que era usual na época - e por fazer parte dos guardados da família de Benjamin Constant, hoje faz parte de nosso acervo.

Fica o convite para que você visite este pequenino registro sobre a vida do Marechal Rondon, até o próximo dia 15 de novembro, data de encerramento do evento.(Update 04/11)

SERVIÇO
Mostra Rondon - 9ª Primavera de Museus
Na Sala de Jantar de nossa Casa Histórica
Até 15/11/2015
De quarta a sexta das 10h às 17h
Aos sábados e domingos das 13h às 17h

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Índios, república e positivismo: Rondon e sua herança no acervo do Museu Casa de Benjamin Constant - 2ª Parte

Marcos Felipe de Brum Lopes
(clique aqui para ler a primeira parte do texto

Máscara mortuária de Cândido Rondon, feita no dia de sua morte e preservada pela
Família Benjamin Constant. Museu Casa de Benjamin Constant, IBRAM/ MinC.
(Reprodução: Paulo Rodrigues)

A relação entre Rondon e a família de Benjamin é simbolicamente republicana e patriótica. Rondon presenteou a família do mestre com uma rede indígena ornada em arte plumária. No centro da rede, as penas lembram o brasão da República brasileira. No dia da morte de Rondon, em 5 de maio de 1958, foi feita uma máscara mortuária, preservada como relíquia entre os bens da família do Fundador da República.

Esses objetos são hoje peças do Museu Casa de Benjamin Constant. Para além de homenagens póstumas, eles nos dão boas pistas para entender que a proposta rondoniana se transformara em missão patriótica, republicana e redentora. Como afirma Carlos Augusto da Rocha Freire, Rondon reconhecia que as atividades de atração de índios “eram caudatárias das técnicas de contato e conquista instauradas pelos jesuítas ao criar aldeamentos à época colonial2. Portanto, Rondon reinventou um antigo modelo de autoridade religiosa sob os preceitos da chamada religião da humanidade, o Positivismo. Em que pese toda a distância entre o cristianismo dos jesuítas e o positivismo de Rondon, ambos compartilhavam a ideia de redenção, descrita por Juarez Távora como “o nobre esfôrço de catequese leiga de nossos índios – em que foi, sem dúvida, um pioneiro3. (grifo de minha autoria) 

Redentor e mártir, Rondon se tornou verdadeiro mito: 
    "O General Rondon é, como patriota, um caso único no seu meio e no seu tempo. (...) O seu clamor não cessou nunca, nem o seu esforço, nem a sua desmarcada coragem. Ha trinta annos que trabalha, que soffre, que sangra, e ha trinta annos que espera, sem desesperar, que a sua lição seja comprehendida. (...) O General Rondon votou a sua vida ao interesse publico, à causa egregia da Humanidade nos diversos aspectos que essa causa tomou no Brazil.
As relações de amizade a serem travadas com os índios eram um passo essencial na caminhada para incorporá-los à pátria, “com o fim de desbravar regiões ainda selvagens do território da nossa Pátria e entrega-las á vida civilizada".5

Os objetos e documentos hoje musealizados nos lembram que a questão indígena é antiga e problemática, com seus desdobramentos conflituosos ainda presentes em nossos dias. São rastros do contato e adaptação indígena aos processos históricos brasileiros. O Positivismo e a República tentaram resolver a presença e a herança indígena através da pacificação e incorporação dos índios à dita vida civilizada. Resta-nos considerar, sempre, se essas relações foram e têm sido realmente pacíficas e republicanas. 

2 FREIRE, Carlos Augusto da Rocha. “Sobre atração e pacificação de povos indígenas”. In.: ______ e GURAN, Milton. Primeiros Contatos. Atrações e pacificações do SPI. Rio de Janeiro: Museu do Índio, 2010, p.13

3 TÁVORA, Juarez. Carta a Esther de Viveiros. 29 de maio de 1956. In.: VIVEIROS, Esther de. Rondon conta sua vida. Rio de Janeiro: Livraria São José, 1958, p.579



4 BANDEIRA, Alipio. “Um caso unico”. In.: Rondon. Rio de Janeiro, 1919, p.3 

5 MISSÃO RONDON. Apontamentos sobre os trabalhos realizados pela Comissão de Linhas Telegraphicas Estrategicas de Matto-Grosso ao Amazonas sob a direção do Coronel de Engenharia Candido Mariano da Silva Rondon de 1907 a 1915. Rio de Janeiro: Typ. do Jornal do Commercio, 1916,  p.23
 
 

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Índios, república e positivismo: Rondon e sua herança no acervo do Museu Casa de Benjamin Constant - 1ª Parte

Marcos Felipe de Brum Lopes

Na 9ª Primavera de Museus, que tem como tema “Museus e memórias indígenas”, nosso museus destaca a relação entre os índios e o Estado brasileiro durante a república. A temática será trabalhada através de uma mostra temporária de documentos e objetos sobre a atuação do Marechal Cândido Rondon à frente do Serviço de Proteção ao Índio (SPI). Rondon teve uma relação bastante próxima com a família de Benjamin Constant e era, assim como Benjamin, positivista. Veja a seguir a primeira parte da Discussão que levantamos sobre o tema. 

Rede oferecida à Família de Benjamin Constant por Cândido Rondon. Século XX.
Museu Casa de Benjamin Constant, IBRAM/MinC. (Reprodução: Paulo Rodrigues)


A presença do índio no debate sobre o Brasil foi e é constante. Nessa história, o SPI, criado em 1910 como SPILTN - Serviço de Proteção ao Índio e Localização dos Trabalhadores Nacionais - teve um papel fundamental. As interpretações sobre a trajetória e os feitos do SPI são as mais controversas e antagônicas. Encontramos detratores, críticos ferrenhos, saudosistas românticos e defensores daquela instituição. Certamente, Cândido Mariano da Silva Rondon é a principal figura dos anos iniciais do SPI, tendo reinaugurado com nova roupagem a tradição de olhar o Brasil através dos índios.

Por todas as críticas que possam ser feitas ao SPI, parece inegável que o contexto no qual foi criado refletiu, pela primeira vez, a necessidade de considerar o indígena como um indivíduo do presente histórico nacional. Se antes o índio povoava o imaginário literário, surgindo de tempos idos e míticos, Rondon começava a se deparar in loco com povos indígenas ao longo dos esforços do governo republicano de unificar o território através da comunicação telegráfica.

A abordagem rondoniana é considerada por Mércio Pereira Gomes pioneira e humanista, pois estabelece a necessidade de considerar os povos indígenas como nações autônomas com as quais o Estado deveria travar “relações de amizade”1. Dessa perspectiva surgiu a belíssima frase “morrer se preciso for, matar nunca” que simboliza bem o comportamento pregado por Rondon em relação ao índio. A frase tem uma influência positivista clara no que se refere à fraternidade e ao mandamento “viver para outrem”, uma das máximas do positivismo. Cândido Rondon, fundador do SPI, foi aluno e discípulo de Benjamin Constant, o Fundador da República. Rondon deu a seu filho o nome de seu professor e um de seus colaboradores nos trabalhos sertanistas era Amílcar Botelho de Magalhães, sobrinho de Benjamin Constant.

Continua...

1 GOMES, Mércio Pereira. Por que sou Rondoniano. In: Estudos Avançados, v.23, nº.65, São Paulo, 2009.

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

9ª Primavera de Museus


Para marcar o início da "estação das flores" - e do "renascimento" de um modo geral - nesta semana temos a 9ª Primavera de Museus. O evento - que é promovido pelo IBRAM - Instituto Brasileiro de Museus - ao qual somos vinculados - tem como tema neste ano "Museus e Memórias Indígenas" e contará com cerca de 2.400 eventos especiais em mais de 800 instituições culturais em todo o país.

O tema foi inspirado num pensamento bastante atual: o de promover uma reflexão sobre a diversidade sociocultural dos mais de 200 povos indígenas que vivem em nosso país, constituindo-se como um dos maiores patrimônios existentes no território nacional. Representados em museus e instituições culturais por meio de exemplares de sua cultura material ou de textos e imagens sobre seu modo de vida, os índios são verdadeiros ícones de nossa identidade nacional, presentes no cotidiano do país, com seus saberes, culturas, línguas, mitos, rituais, músicas, entre outras manifestações.

Durante a 9ª Primavera de Museus, muitas instituições darão destaque ao seu acervo de
peças indígenas, provenientes de tribos presentes de norte a sul do país.


E muita coisa bacana vai acontecer. Confira alguns destaques:

Museu de Valores do Banco Central do Brasil
Exposição: "Brasis - Iconografia e grafismo indígena"
De 22/09/2015 a 30/04/2016 - das 10h às 17h30
SBS QUDRA Nº, 3 - BLOCO B - ED SEDE BACEN
1º SUBSOLO - ASA SUL - Brasília - DF
museudevalores@bcb.gov.br
Tel: (61) 3414-2099 (61) 3414-2093

Museu Palácio Floriano Peixoto
Exposição “Filhos Deste Solo”, com obras da Artista Plástica Teresa Lima, retratando figuras indígenas e seus costumes. Acompanhada de oficinas e palestras sobre o tema.
De 17 a 30/09, das 9h às 17h
Pça. Marechal Floriano Peixoto, 517 - Centro - Maceió - AL
mupaalagoas@gmail.com
Tel: (82) 3315-7874

Uma série de instituições também planejou oficinas de artes para crianças,
baseando-se na iconografia e algumas técnicas indígenas.

Museu de Numismática Bernardo Ramos
Exposição de peças dos índios Sateré-Mawé e moedas do período colonial
De 22 a 26/09 - das 9h às 16h
Praça Heliodoro Balbi, s/n - Palacete Provincial - Centro - Manaus - AM
m_numismatica_br@culturamazonas.am.gov.br
Tel: (92) 3631-6047 (92) 9930-49968


Memorial Minas Gerais Vale
  • Mostra de vídeos "Ìndios no Brasil", que integra o projeto “Vídeo nas Aldeias”, onde pretende-se desconstruir estereótipos valorizando e reconhecendo os povos indígenas na sociedade atual.
  • Exposição "Indianologia por Nelson de Senna - De uma Memória que temos em elaboração" - mostra de documentos que convida para uma reflexão sobre a identidade e representatividade indígena ao longo do tempo. Acervo APCBH.
De 1º a 30/09 das 10h às 18h
Praça da Liberdade, 640 - Funcionários - Belo Horizonte - MG
milena.lago@memorialvale.com
Tel: (31) 3308-4013


Museu do Saneamento
Mostra fotográfica de Paulo Henrique Coelho Madalena, realizada na comunidade indígena Araça-í em Piraquara, que retrata momentos da comunidade e sua relação com a água.
De 21/09 a 9/10 - das 14h às 17h30
Rua Engenheiro Antônio Batista Ribas, 151 - Sanepar - Tarumã - Curitiba - PR
visitas@sanepar.com.br
Tel: (41) 3330-7288 (41) 3330-7278

Palestras, debates, filmes e encontros sobre tribos específicas
(ou não), serão destaque nesta semana, em todo o país.


E aqui em nosso museu, o evento é singelo - mas bastante significativo: montamos uma pequena mostra, dentro de nossa exposição de longa duração, lembrando ninguém menos que o Marechal Cândido Rondon, aluno, discípulo e amigo de nosso patrono, Benjamin Constant. Rondon é reconhecidamente um dos mais importantes sertanistas brasileiros, desempenhando um papel pioneiro junto às populações indígenas com as quais manteve contato, demarcando suas terras e assegurando aos índios trabalho, além de participar da formulação das primeiras políticas indigenistas de nosso país.
Venha ver: a entrada é franca e estaremos funcionando de segunda a sexta feira das 10h às 17h e no sábado e no domingo das 13h às 17h.


quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Curiosidades sobre a Independência do Brasil


"O Grito do Ipiranga", de Pedro Américo, é tido como o quadro que representa a
Proclamação da Independência do Brasil. No entanto, há várias contestações
sobre o conteúdo do quadro, que só foi pintado na Itália entre 1886 e 1888...

Nesta semana comemoramos a Proclamação da Independência do Brasil, ocorrida no dia 7 de setembro de 1822. E apesar de estarmos em um museu dedicado a uma figura ligada à República, acreditamos que vale a pena lembrar sempre de nossas datas históricas, pensando em fortalecer nossa cidadania, sentimento básico para o crescimento e o desenvolvimento de um povo ou nação, em diversos sentidos e dimensões.

Para que o tema fosse abordado de forma leve e simbólica, procuramos por curiosidades sobre este dia tão importante para nosso país. Vamos a elas?

• Quando Dom João VI partiu do Rio de Janeiro de volta a Portugal, em 1821, deixou o príncipe herdeiro, Dom Pedro, como regente. Durante sua regência, a corte portuguesa planejava recolonizar o Brasil, e passou a exigir a volta do príncipe. Se ele voltasse, o Brasil retornaria à condição de colônia. Para convencer Dom Pedro a permanecer, o presidente do Senado, José Clemente Pereira entregou a ele milhares de assinaturas que pediam que não partisse. Finalmente, no dia 9 de janeiro de 1822, Dom Pedro decidiu permanecer no Brasil, quando então disse a célebre frase "Se é para o bem de todos e felicidade geral da nação, diga ao povo que fico!". Por isso a data ficou conhecida como o "Dia do Fico". 


Registro do "Dia do Fico" - que efetivamente é um marco no processo
da Independência de nosso país - este quadro de Debret mostra
Dom Pedro aclamado no Campo de Sant´Anna no Rio.

• Segundo alguns pesquisadores, Dom Pedro estaria na casa de sua amante, a Marquesa de Santos, quando recebeu a carta de sua esposa, a Imperatriz Leopoldina, que o teria alertado sobre a intenção de Portugal de recolonizar o Brasil. Ela teria enviado esta carta durante a viagem de Dom Pedro a São Paulo, com os dizeres: “(…) Com o vosso apoio ou sem o vosso apoio ele (Brasil) fará a sua separação. O pomo está maduro, colhei-o já, senão apodrece (…)”. Na madrugada de 7 de setembro de 1822, ele inicia sua viagem de volta para São Paulo, quando então realiza o grito libertador.

• Dom Pedro contou as novidades aos que o acompanhavam na viagem e disse: "Eles o querem, terão a sua conta. As cortes me perseguem, chamam-me com desprezo de rapazinho ou de brasileiro. Pois verão quanto vale o rapazinho. De hoje em diante estão quebradas as nossas relações. Nada mais quero do governo português, e proclamo o Brasil para sempre separado de Portugal!" - o grito "Independência ou Morte" foi proclamado mesmo às 16h30 daquela tarde.


Pintado pelo francês François-René Moreaux , "Proclamação da Independência"
foi feito mais próximo da data do acontecimento, em 1844 - original do
Museu Imperial de Petrópolis, Rio de Janeiro.

• O Brasil pagou 2 milhões de libras a Portugal pela sua Independência. E Pedro, com ajuda de Leopoldina, consolidou este fato lutando pelo reconhecimento do novo país junto aos dirigentes de outras nações, inclusive junto ao pai da Imperatriz, Francisco I, poderoso imperador da Áustria.

• E finalmente, dizem os pesquisadores que Dom Pedro foi acometido neste dia por forte desarranjo intestinal. Portanto, não parou às margens do rio Ipiranga porque aquele era um lugar especial e bonito para ser o marco da Independência. Na verdade, ele parou para "se aliviar um pouquinho". E já que tinha parado, gritou a frase histórica ali mesmo.


FONTES:
EBC
História Digital
Guia dos Curiosos