quarta-feira, 22 de novembro de 2017

A Festa da Bandeira

Marcos Felipe de Brum Lopes

Em novo texto, nosso historiador, Marcos Lopes, nos explica os motivos pelos quais o culto à bandeira nacional em nosso país nunca foi algo simples ou fácil.

Você sabe por que comemoramos o dia da bandeira no dia 19 de novembro? Não? Há duas razões: a primeira é que foi em 19 de novembro de 1889, 4 dias depois da proclamação da República, que nossa bandeira foi oficializada pelo Decreto nº 4. A flâmula foi recriada a partir da bandeira do Império, desenhada por Jean Baptiste-Debret. Com a mudança do regime de governo em 1889, coube ao artista Décio Villares retraçar a bandeira sob a orientação do positivista Raymundo Teixeira Mendes. Foram aproveitados da antiga bandeira o retângulo verde e o losango amarelo, e foi substituída a esfera com as armas do Império, que deu lugar à esfera celeste representando a posição das estrelas na exata hora da proclamação da República. Para saber a posição das estrelas (a proclamação se deu pela manhã, quando não se podia ver os astros no céu), um astrônomo foi consultado. Surgia assim, de escolhas controversas e por técnicas ao mesmo tempo científicas e curiosas, a bandeira republicana.

"A Força Policial passando em frente ao palacio do Cattete e á Escola Rodrigues Alves,
no dia da festa da bandeira"
"O Malho". 20 de novembro de 1908. Acervo da Biblioteca Nacional
Fonte: http://memoria.bn.br/docreader/DocReader.aspx?bib=116300&pagfis=12624&pesq=festa%20da%20bandeira
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A segunda razão é menos conhecida. O fato é que as celebrações em torno da bandeira começaram apenas 19 anos depois da criação do símbolo, em 1908, por iniciativa de alguns políticos e pensadores. Entre eles há um que é considerado o mentor da celebração. Manoel Tavares da Costa Miranda nasceu em Canguaretama, Rio Grande do Norte, em 1873. Positivista, militar e muito próximo da família de Benjamin Constant, fez carreira no serviço público, defendeu a república contra os movimentos de restauração da monarquia e atuou significativamente na construção do culto aos símbolos nacionais, sendo considerado o criador do Dia da Bandeira, à época chamado de "Festa da Bandeira".

O pavilhão nacional nasceu em meio a polêmicas e ataques públicos aos seus idealizadores, os positivistas. Tantas foram as críticas e mesmo piadas que circulavam na imprensa e no boca a boca carioca, que Teixeira Mendes, mentor ideológico do novo desenho da bandeira, se viu obrigado a publicar um artigo para se defender. Baseado nas ideias de Augusto Comte, criador do positivismo, buscava de uma vez por todas consolidar publicamente a bandeira da pátria.

"Na festa da bandeira: o povo e o batalhão do Instituto Profissional, em frente a Prefeitura,
por ocasião da sessão cívica alli realisada
"
"O Malho" 20 de novembro de 1908. Acervo da Biblioteca Nacional
Fonte: http://memoria.bn.br/docreader/DocReader.aspx?bib=116300&pagfis=12624&pesq=festa%20da%20bandeira
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Dezenove anos depois, em 1908, quando começaram as festividades em homenagem à bandeira no Rio de Janeiro, os símbolos ainda estavam por firmar-se. Ao que parece, a Festa da Bandeira não surgiu para comemorar um símbolo amado, mas sim para ensinar a amá-lo. Em seu esforço, os positivistas de então chegaram a formar uma "Comissão Glorificadora do Natalício da Bandeira da República" e a imprensa registrou a participação popular nos festejos.

Assim, o evento de 1908 tinha o objetivo público de uniformizar o culto à bandeira, instituindo um horário para que o símbolo fosse hasteado em vários locais da cidade com participação de alunos, professores, militares e população das ruas cariocas. As escolas receberam circular do diretor da Instrução Pública, Leôncio Correia, com orientações sobre como proceder com as homenagens. As professoras que aderiram aos festejos leram sonetos em saudação à bandeira e mobilizaram os alunos, que entoaram os hinos nacional e à bandeira.

Nessa altura, o Diário Oficial registra ordens para que navios e fortalezas dessem salvas de tiros e para que vários setores das Forças Armadas cultuassem a bandeira ao meio-dia. Sessões solenes no Senado e na câmara do comércio também cultuaram o símbolo. O tom das matérias valoriza a adesão popular aos eventos. O "Correio da Manhã" relata, em 20 de novembro de 1908, que “não só nos estabelecimentos oficiais foi prestada homenagem ao símbolo da Pátria. Também os particulares arvoraram a bandeira, rendendo-lhe culto de amor cívico. O Povo associou-se de coração ao júbilo do dia e, em muitas ruas, à noite, vimos fachadas brilhantemente iluminadas”. De acordo com a imprensa, tudo seguia como desejavam os líderes do movimento. Bem, nem tudo.

Desde as manifestações de 2013 o pavilhão nacional também vem aparecendo como
um símbolo máximo de união de nosso povo.
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O jornal "O Suburbio" registra: “pena é que em todas as escolas municipais não se prestasse essa reverência como determinou o dedicado e ilustre diretor de instrução. Sabemos que algumas escolas em diferentes zonas que, além de não terem mastros nem bandeiras, as professoras não ligaram importância às ordens emanadas pela diretoria de instrução, o que assinalamos aqui para que tal abuso não continue em outras comemorações”.

Se passaram muitas décadas e, ainda hoje, a bandeira não é unânime. Por outro lado, sugestões de mudança do pavilhão geram protestos e discussões. É o caso do “amor”: entra ou não entra para fazer companhia ao “Ordem e Progresso’”? Essa é uma discussão que já abordamos aqui. A intenção dos positivistas da época era cultivar o afeto ao símbolo como legitimador de um projeto republicano. Mas a ideia de uma República que congregasse harmonicamente interesses se mostrou ilusória e o símbolo se associou a processos e vontades tão distintos ao longo da história, que pode ser reivindicado por grupos políticos diferentes e ao mesmo tempo ser rejeitado por muita gente.

Na época das Copas do Mundo ou de qualquer outra competição internacional
da seleção brasileira de futebol, a bandeira nacional surge como símbolo
máximo da nação unida em torno de um objetivo: vencer!
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Há pelo menos duas ocasiões típicas do Brasil em que a bandeira nacional é mobilizada. Uma é o futebol. Talvez seja a experiência sociocultural mais agregadora que ainda temos, no que toca o uso do verde-amarelo. A outra é o conjunto das manifestações populares nas ruas, que se multiplicaram desde 2013. Não se pode dizer que são (quase) unânimes, como o é um jogo da seleção canarinha. Basta alguém levantar uma outra bandeira nas ruas, que não seja a nacional e tenha cores diferentes do verde-amarelo, para sofrer sanções e mesmo violências. É no mínimo curioso o fato de que o Dia da Bandeira, que começou em 1908 como festa, não esteja na lista das ocasiões que mais mobilizam em massa a própria bandeira. O que teria ocorrido com o projeto de nação encampado pelos positivistas? Quem está hoje interessado em cobrir o país novamente com um manto apenas, adicionando o “amor” ao “ordem e progresso”? São perguntas que todos devemos fazer.

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