sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Documentos de um museu retornando para casa

Por ocasião da 11ª Primavera de Museus - ocorrida de 18 a 24 de setembro último, cujo tema foi "Museus e suas memórias" - elaboramos um pequeno texto sobre um novo Fundo Arquivístico que vem se integrar a nosso Arquivo Histórico configurando uma novidade em nosso museu. Leia abaixo o texto na íntegra, conforme foi produzido pelo setor de história, que coordena todo o processo.

Não há substitutos para os documentos: sem documentos, sem história”. Essa frase do século retrasado é uma das mais conhecidas dos historiadores. Está registrada no manual para os praticantes de história, escrito por Charles Langlois e Charles Seignobos. Ela contém uma afirmação reconhecidamente verdadeira e merecidamente criticada.

Hoje podemos concordar que a história não está nos documentos, pronta para ser narrada por nós. Mas continuamos a depender deles, queremos complementar coleções antigas, descobrir documentos novos, e até produzir documentos para responder aos nossos questionamentos. Aqui no museu, um museu casa, uma casa histórica, trabalhamos diariamente com a história de um museu de história. Estamos cercados por documentos.

Nem todos

Os museus que hoje compõem a estrutura do Instituto Brasileiro de Museus - IBRAM - MinC, estiveram, por muitos anos, sob o cuidado do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional - IPHAN, igualmente uma autarquia subordinada ao Ministério da Cultura - MinC. A migração dos museus para um instituto independente e autônomo correu em 2009, data da criação do IBRAM. A proximidade histórica entre os museus e o IPHAN deixou muitos rastros documentais, preservados nos arquivos do instituto que cuida do patrimônio nacional. Uma das consequências da criação de um instituto autônomo como o IBRAM foi o afastamento de alguns museus da documentação referente à sua própria vida institucional.

Com o objetivo de reunir esses documentos, o Museu Casa de Benjamin Constant conduziu uma extensa pesquisa nos acervos do IPHAN e, mediante autorização, produziu cópias fotográficas da documentação. A ação contemplou as diversas tipologias de documentos e procurou contornar a distância entre o museu e sua vida institucional pré-2009, facilitando o acesso e a recuperação da informação.

Planta do Museu Casa de Benjamin Constant, referente a uma das
intervenções de restauro na casa. 1989. Arquivo da 6ª S.R.
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Mobilizamos o setor de pesquisa e os estagiários, que saíram em missão para localizar e fotografar o material no Arquivo Central do IPHAN e no arquivo da 6ª S.R., ambos no Rio de Janeiro. Os dois arquivos nos receberam muito bem. Murilo Haither, estudante de história da UFRJ, foi um dos que participaram da iniciativa. “Trabalhar com esse material produziu mais que um enriquecimento à prática da profissão de historiador”, afirma o estudante. “Observar os ofícios de servidores lidando com os problemas cotidianos na tentativa de proporcionar as melhores condições para o funcionamento do museu, manutenção do espaço e do acervo, criação de redes de cooperação institucional, dentre outras ações, ampliou significativamente as minhas noções sobre a dinâmica da vida institucional: as engrenagens do Museu Casa de Benjamin Constant e do IPHAN não funcionavam sozinhas. E seus operadores têm nomes”, registra Murilo.

Nosso historiador, Marcos Lopes, também afirma que “o cotidiano de pesquisa se baseia num relacionamento apaixonado com documentos. Mas não nego que trabalhar internamente na formação e organização de coleções é vagaroso e requer paciência”. A recompensa, por outro lado, é grande: “não estamos servindo somente ao museu ou ao IBRAM. Estamos servindo ao público, acadêmico e não acadêmico. É a função mesma do intelectual servidor público”, completa.

Nosso museu já conta com cinco fundos arquivísticos que contemplam a documentação doada pela família de Benjamin Constant, ao longo do século XX. Nosso projeto atual é aumentar esse número. O “Fundo MCBC” está sendo criado e deverá congregar, num inventário, os documentos sobre nossa história institucional que permanecem sob a salvaguarda dos arquivos físicos do IPHAN, juntamente com outros que estão depositados aqui.

Vista da chácara da família de Benjamin Constant e Plano Inclinado
de Santa Teresa. Circa. 1900. Arquivo Central do IPHAN.
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 Mesmo antes da organização completa dos documentos, já colhemos alguns frutos. O primeiro foi a recuperação de informação visual sobre as obras de restauro da casa histórica, ao longo do século passado. Esses dados serviram de referência para as intervenções realizadas atualmente, já que estamos com uma obra de restauro completo em andamento. Para a museóloga e restauradora Ana Paula Vasconcelos, os documentos recolhidos pelo museu na pesquisa do arquivo do IPHAN “possibilitaram uma melhor identificação e análise dos itens que seriam submetidos ao restauro”.

Alguns documentos também foram o ponto forte do trabalho apresentado no último congresso da ANPUH - Associação Nacional de História, em Brasília, por nosso historiador. “Minha intenção foi registrar e comparar as opiniões dos técnicos do IPHAN sobre intervenções em bens tombados. Encontrei interessantes rastros disso na documentação sobre nosso museu, preservada pelo IPHAN”, confirma o profissional.

Nossa diretora, Elaine Carrilho, afirma que “a criação do Fundo MCBC vai contribuir para a preservação da memória institucional e permitir o tratamento arquivístico adequado da documentação em dossiês temáticos a serem disponibilizados aos pesquisadores”.

Talvez seja um exagero dizer que os documentos estão "retornando para casa". Os originais permanecem no IPHAN e fazem parte da história institucional daquele órgão. Mas não podemos deixar de pensar que eles estão, de alguma maneira, visitando o museu e achando um novo lar. Afinal, somos um museu casa.

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